DEVO, NÃO NEGO
DEVO, NÃO NEGO
Luiz Albuquerque
E-mail: lccalbuquerque@gmail.com
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Meu pai falava de um
tempo quando um fio do bigode era mais garantia de pagamento do que qualquer
papel assinado, um tempo em que ser
devedor era a vergonha e a desonra de qualquer cidadão e de sua família. Sei
que, no caso do meu pai, nunca vi alguém chegar ao portão de nossa casa para
cobrar qualquer coisa dele. E olhe que ele ganhava muito pouco e a situação
financeira era bem difícil.
Mas o tempo passou e as
coisas mudaram. O “fio do bigode” deu lugar para o “devo, não nego, e só pago
quando tiver...”, e depois para o “devo, não pago, e nego enquanto puder...”.
Nos meus anos de comércio ouvi várias desculpas para
alguém não pagar conta. Lembro-me
de uma senhora, proprietária de uma farmácia, que, sempre que era cobrada,
gritava, enfurecida, que não admitia receber cobranças, pois pertencia a uma certa igreja que era frequentada somente por pessoas
honestíssimas.
Muitos devedores passaram
por minha vida. Não que todos fossem caloteiros, ao menos alguns, pois era a
situação deles que não permitia cumprirem os compromissos assumidos. Já outros
davam calote porque não eram muito chegados a pagar. Vários, que nunca cumpriam
o combinado, eram conhecidos como quem “marca como sem falta e falta como sem
dúvida”.
Muitas foram as desculpas
que ouvi. Tinham as estranhas, as inéditas, as cômicas e as criativas. Até que,
ao procurar um comerciante para receber um pequeno valor, ouvi uma desculpa
inusitada: “Olhe, volte outro dia, porque eu nunca pago conta durante a semana”.
Lembro, também, de um
empresário do ramo moveleiro, famoso por não pagar ninguém. Certa noite o encontrei saindo de uma
faculdade. Curioso, perguntei o que fazia ali. E ele explicou: “Estou fazendo curso de direito, pois cansei de
pagar advogados para defender minha empresa contra os cobradores”. Ele, além de
não querer pagar, estava buscando também economizar.
Agora, a melhor justificativa
para deixar de pagar, ou melhor, a maior “enrolação” de devedor que conheci foi
o caso de um camarada que, ao receber uma cobrança mais pesada, colocou à
frente do cobrador talões de cheques de três bancos diferentes e perguntou:
“Com cheque de qual banco você prefere receber?” O credor, após analisar os
três talões, escolheu aquele cujo banco lhe parecia mais confiável. O devedor,
recolhendo os talões, fechou a questão esclarecendo: “Rapaz, você não tem
sorte. Este é o único banco no qual
eu estou sem saldo!”.
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