DEVO, NÃO NEGO

 


 Contos e Crônicas do Luiz

DEVO, NÃO NEGO

Luiz Albuquerque
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Meu pai falava de um tempo quando um fio do bigode era mais garantia de pagamento do que qualquer papel assinado, um tempo em que ser devedor era a vergonha e a desonra de qualquer cidadão e de sua família. Sei que, no caso do meu pai, nunca vi alguém chegar ao portão de nossa casa para cobrar qualquer coisa dele. E olhe que ele ganhava muito pouco e a situação financeira era bem difícil.

Mas o tempo passou e as coisas mudaram. O “fio do bigode” deu lugar para o “devo, não nego, e só pago quando tiver...”, e depois para o “devo, não pago, e nego enquanto puder...”.

Nos meus anos de comércio ouvi várias desculpas para alguém não pagar conta. Lembro-me de uma senhora, proprietária de uma farmácia, que, sempre que era cobrada, gritava, enfurecida, que não admitia receber cobranças, pois pertencia a uma certa igreja que era frequentada somente por pessoas honestíssimas.

Muitos devedores passaram por minha vida. Não que todos fossem caloteiros, ao menos alguns, pois era a situação deles que não permitia cumprirem os compromissos assumidos. Já outros davam calote porque não eram muito chegados a pagar. Vários, que nunca cumpriam o combinado, eram conhecidos como quem “marca como sem falta e falta como sem dúvida”.

Muitas foram as desculpas que ouvi. Tinham as estranhas, as inéditas, as cômicas e as criativas. Até que, ao procurar um comerciante para receber um pequeno valor, ouvi uma desculpa inusitada: “Olhe, volte outro dia, porque eu nunca pago conta durante a semana”.

Lembro, também, de um empresário do ramo moveleiro, famoso por não pagar ninguém.  Certa noite o encontrei saindo de uma faculdade. Curioso, perguntei o que fazia ali. E ele explicou: “Estou fazendo curso de direito, pois cansei de pagar advogados para defender minha empresa contra os cobradores”. Ele, além de não querer pagar, estava buscando também economizar.

Agora, a melhor justificativa para deixar de pagar, ou melhor, a maior “enrolação” de devedor que conheci foi o caso de um camarada que, ao receber uma cobrança mais pesada, colocou à frente do cobrador talões de cheques de três bancos diferentes e perguntou: “Com cheque de qual banco você prefere receber?” O credor, após analisar os três talões, escolheu aquele cujo banco lhe parecia mais confiável. O devedor, recolhendo os talões, fechou a questão esclarecendo: “Rapaz, você não tem sorte. Este é o único banco no qual eu estou sem saldo!”.

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