CAMAROTE Nº 1

 CAMAROTE Nº 1

Luiz Albuquerque 


Segundo os dicionários, “Recreio” é todo engenho ou aparelho, de qualquer natureza, com comprimento entre 2,5 e 24 m, utilizado em desportos náuticos ou para simples prazer, sem fins lucrativos.

 

Já no Amazonas, Recreio (ou barco, motor, embarcação) é o transporte fluvial que serve para levar mercadorias e passageiros entre Vilas, Distritos, Municípios e até Estados, só que tudo pago e com fins de lucro. Construídos de madeira ou ferro e de tamanhos variados, são compostos de até cinco “passadiços”, como são chamados os pisos ou andares. Os maiores barcos chegam a transportar seiscentos ou mais passageiros, e cada viagem pode demorar um, dois ou mais dias, e algumas delas até semanas. A pressa, por ali, para aquele povo, naquelas viagens, é algo estranho e distante.

Os passageiros usam redes para dormir e passar os lentos dias, as quais são “armadas”, ou seja, penduradas nos armadores e que, devido a quantidade de passageiros, em geral ficam encostadas umas às outras e até umas sobre as outras. Para o descanso dos passageiros, além dos espaços para redes, os barcos ainda oferecem camarotes mobiliados com beliche e um ventilador, sendo estes os espaços mais caros. Os mais luxuosas chegam a ter ar refrigerado e banheiro privativo.

As refeições são servidas em uma mesa que, quando está sem uso, fica suspensa presa ao teto para, assim, sobrar mais espaço para a armação das redes. Nos barcos com grande capacidade de passageiros já existem refeitório e lanchonete em espaços próprios. Certamente pelo costume dos passageiros nessas viagens, por mais que possa parecer confuso tudo funciona bem.

E foi numa viagem entre Manaus, capital do Amazonas, e a pequena e agradável cidade de Lábrea, que fica às margens do Rio Purus, que aconteceu este fato.

O barco saiu de Manaus numa sexta-feira por volta das sete da tarde. Na primeira noite, não serviram o jantar e, por isso, após a partida muitas pessoas logo se acomodaram para dormir. O barco, lento, segue seu rumo, varando noites e dias subindo os rios, as verdadeiras estradas da Amazônia.

Aos poucos vieram os primeiros comentários sobre o casal, passageiros do camarote nº 1. Desde Manaus, a mulher só saía do camarote para usar o banheiro, enquanto era o homem era quem buscava comida e água. Comiam no camarote. E assim, durante toda a viagem, não saiam da cabine para outra coisa, nem mesmo para conversar com alguém. Os dias foram passando e as fofocas, aumentando. Depois de paradas nas barrancas do Rio Purus, em Distritos e Municípios de nomes indígenas como Paricatuba, Tapauá e Canutama, chegam a Lábrea na madrugada da sexta-feira.

Nem deu tempo nem de ser colocada a prancha para os passageiros saírem. De um pulo, entra no barco um sujeito grande e forte, que tira da cinta uma arma. Sustos, gritos, até desmaios. Debandada, gente pulando em terra e no rio, caindo ou se jogando. O cara vai direto ao camarote n.º 1. Esmurra a frágil porta enquanto grita “Arlete! Abre esta porta senão eu arrombo!” Berra, xinga. A porta é aberta e ele entra, com violência. Ato contínuo, a porta é fechada.

Suspense, gritos! A voz do sujeito, urrando, “Sua cadela!” e “Vou matar vocês dois, safados!”. Muitos berros dos três, enquanto corpos se chocavam contra as paredes do camarote. Lá fora, em suspense, todos também gritavam: “Vai lá!”, “Ele vai matar os dois!”, “Chama a polícia!”

Aos poucos as vozes na cabine vão baixando o tom. Após algum tempo, ninguém de fora conseguia escutar bem o que lá se falava, apenas algum soluço, um choro, um sussurro ou uma leve alteração de voz, talvez.

Desde que o homem invadira o local, passado mais de trinta minutos, chega um soldado de polícia. Bate à porta e, com a autoridade que lhe é devida, berra: “Abre, é a Polícia!”. Logo a porta é aberta e a autoridade entra, fechando-a logo em seguida. Depois de algum tempo saem por ela o homem invasor e a mulher, acompanhando o policial. Conversam fora do barco, em terra. Depois o policial se vai, reclamando do sono perdido, e o casal vai embora, com o homem carregando as malas da mulher. O outro homem continua no camarote, com a porta fechada. Nada mais. Fica só a curiosidade, todos querendo saber o que houve.

A resposta veio através de alguém, amigo do policial, e que com ele conversara após a liberação do casal: “É que a mulher tinha fugido de Manaus com o cara. O marido dela soube para onde vinham, pegou um avião e veio esperá-los aqui”. Muitos comentários, lembrando os momentos da confusão. Aos poucos cada um foi para a sua rede.

Quatro horas da madrugada. No barco quase todos dormiam, afora alguns passageiros que, acordados, conversavam, aguardando o dia raiar para ir para casa. De repente entra no barco o marido da mulher, agora calmo. Vai até o camarote número um e bate à porta, suavemente, como que com medo de acordar o outro. Chama “Renato? Ô Renato!”. De dentro alguém pergunta, com a voz sonolenta: “O que é?”. E o cara: “Desculpe! Mas é que a Arlete esqueceu aí dentro uma toalha e duas calcinhas, que estavam secando. Dá pra você me entregar?” 



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