O REGATÃO
O REGATÃO
Luiz Albuquerque
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A Amazônia comporta a
maior bacia hidrográfica do mundo. Seus rios, os principais e os secundários,
servem como “estradas aquáticas” pelos quais deslocam-se embarcações,
geralmente de pequeno porte, transportando passageiros e suas bagagens, além de
mercadorias diversas. Produtos
industrializados como sal, açúcar, óleo, bolachas, pinga, cigarro, entre
outros, são levados das capitais para as pequenas cidades, vilas e comunidades
ribeirinhas. Nas negociações, ainda é comum a troca de produtos por produtos, o
famoso escambo, chegando até a não entrar dinheiro como referência de moeda de
compra. São trocados por produtos primários como borracha, castanha, pau-rosa, galinhas,
porcos, queijos etc., que são levadas para a capital ou outras cidades. Fazendo esse tipo de negociação, ainda
existe, embora bem menos do que há décadas atrás, o regatão.
Regatão é um termo que
tanto pode vir de “regatear” (pechinchar) como de “regatas” (corrida de
embarcações). Mas isto não é importante.
Para os caboclos das
barrancas solitárias dos rios da Amazônia, o termo “regatão” tanto identifica o
barco que traz e leva produtos quanto o seu dono ou quem o pilota. O barco,
tendo às vezes só o proprietário a bordo, vai parando de casa em casa nas
margens dos rios, trocando os produtos industrializados por tudo que possa ser
vendido na cidade. Anos atrás o regatão era, basicamente, o único contato entre
o caboclo e a civilização, levando produtos, novidades e notícias.
Entre os donos de regatão,
um dos mais famosos era o Galo Cego. Certo dia Galo cego chegou nas barrancas do porto do
Tião.
“Ó de casa cumpadi
Tião!” gritou, enquanto saia do barco e subia o barranco. Tião nem se mexeu. De
cócoras que estava, lá ficou. Já tinha enxergado seu
compadre cruzando o rio. Aguardou ele chegar mais próximo para responder ao
chamado. “Se achegue meu cumpadi” respondeu. Conversas, o saber de notícias,
novidades. Tião convida o compadre para pernoitar, o outro aceita.
Galo Cego, assim chamado
por ter um dos olhos furado e cego desde menino, ao ver seu compadre acender o
fumo com o fósforo fala da grande novidade: “Olhe essa novidade, compadre” e
mostra. O outro estranha: “Que diacho é isso?”. Galo Cego dá risada e, com cara
de sabido, responde: “É isqueiro compadre. Modernidade. Vindo lá das Europa!”. Tião
pega o isqueiro e, todo sem jeito, examina, Pergunta: “Pra que é que serve esse troço?”. O outro, com
ar inteligente, esclarece: “Pra acender coisas. Cigarro, a lenha, o fogareiro,
o lampião. Acabou-se o fósforo. Agora é mais fácil”. Enquanto falava, Galo Cego
pega de volta e mostra a todos aquela maravilha, um isqueiro dourado, quadrado,
grande, com pavio e pedra pra acender. Uma modernidade para aquela região, naquelas
épocas.
Tião, de cócoras ao lado
do fogo de lenha onde moqueava um peixe fresco, olha com curiosidade a novidade
na mão do outro. Vira-se para o compadre e pergunta como funcionava. Galo-Cego
explicou:
“É muito fácil! Dentro do
isqueiro tem um chumaço de pano e dele sai este pavio. Primeiro, o senhor
umedece bem o pano com querosene. Depois, fecha este buraco, aqui debaixo, com
este parafuso pequeno, tá vendo?”.
O Tião, balançando a
cabeça, aprovou “Hum, hum!”. O outro prosseguiu:
“Depois, o senhor pega
essa pedrinha e coloca aqui neste furo e fecha com parafuso com mola. Daí é só
abrir a tampa do isqueiro, rodar com o dedo essa rodinha aqui em cima que aí
ela faz uma faísca e o pavio se acende. Tá vendo?”.
Ao redor do Galo-Cego
toda a família olhava, entre admirados e desconfiados daquela novidade.
Tião tira uma baforada do
cigarro de fumo-de-corda e fica matutando um tempo. No rosto, uma expressão de
um “quê” de zombaria da inteligência do outro. Finalmente, abre uma caixa de
fósforos, tira um palito e mostra para Galo-Cego, dizendo: “Mas cumpadi, que
novidade mais besta, é muito trabalho pra acender um fumo. Num é muito mais
fácil acender fogo assim, ó?” E risca o palito de fósforo, acendendo-o.
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