O RESTAURANTE SEM COMIDA
Contos e Crônicas do Luiz
O RESTAURANTE SEM COMIDA
Luiz Albuquerque
E-mail: lccalbuquerque@gmail.com
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Viajando pela Amazônia, a embarcação foi parando nos poucos municípios localizados às margens do sinuoso rio. Depois de vários dias de viagem, comendo “sabe-lá-o-quê” preparado “sabe-lá-por-quem”, numa mistura de cheiros e sabores que tanto poderia ser um pedaço de frango quanto de peixe, ou mesmo de algum outro animal desconhecido, ele desejava uma refeição com sabor comum, caseiro. Assim pensando, e aproveitando que o barco passaria algumas horas ancorado numa daquelas pequenas cidades, ele desceu para a terra e foi em busca de um restaurante ou algo parecido. Todos indicaram a Dona Raimunda como a única pessoa que preparava refeições para vender, ainda que raramente o fizesse, haja vista ali ser difícil chegar algum estranho ou mesmo que alguém do lugar comesse fora de casa. Orientado, rumou para a casa de Dona Raimunda, um casebre de madeira construído sobre palafitas próximo ao barrento e tortuoso rio.
Dona Raimunda, uma mulher pequena, enrugada pela idade e de aparência cabocla, o recebeu muito bem. Porém alegou não ter nada para fazer de almoço, já que não estava aguardando nenhum freguês. Ele, então, se dispôs a ir comprar o necessário, desde que ela cozinhasse.
Tudo acertado, ele saiu em busca de ingredientes. Depois de procurar nos raros comércios do local, e até em casas de família, conseguiu comprar um frango, arroz, feijão, poucas verduras e alguns temperos. Feito o rancho, levou para Dona Raimunda, que disse: “O almoço fica pronto após o meio-dia”.
Ele deu um “rolê” no lugarejo e, às doze horas, voltou para a casa da cozinheira. Lá chegando, foi conduzido à cozinha simples, com uma mesa ao centro. Ela serviu-lhe um prato fundo com arroz, feijão e macarrão. Ao lado, uma tijela com farinha e outra com uns quatro pedaços de frango num molho grosso. Comeu com gosto!
Logo o frango acabou. Ainda com fome, chamou dona Raimunda e disse: “A senhora pode me trazer mais frango?”. E ela: “Ah, acabou!”
“Como?
“Os ‘menino’ comêru tudo! Mas vou trazer um molhinho com o arroz que sobrou”.
E assim ele concluiu a refeição com um pouco do grosso caldo da galinha que restara. Ao terminar, perguntou, um tanto sarcástico:
“Devo ainda alguma coisa?”
E ela: “Só cinco Cruzeiro”
“Pensei que, por ter comprado a comida, não precisasse pagar” – questionou. Ela replicou:
“Ah! Eu não tô aqui pra trabalhar de graça não, moço! Se o senhor quiser, pode levar o resto. Mas não sobrou muita coisa não!”.
Ele pagou e foi embora. A refeição lhe saiu bem cara, mas, ao menos, matou a vontade de comer algo diferente.
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